Lucas Sena- Mestrando em Genética e Biologia Molecular
UFRGS
Nosso planeta passou por uma
série de transformações nos últimos bilhões de anos. Essas transformações
possibilitaram o surgimento da vida e em alguns momentos a extinção de centenas
de espécies. Porém, no último século a terra está passando por profundas transformações
que estão alterando uma série de relações ecológicas e meteorológicas. Essas
mudanças que vêm ocorrendo em um ritmo acelerado estão estritamente
relacionadas ao início da revolução industrial e a matriz energética que
utilizamos hoje.
Também uma investigação realizada
pelo Greenpeace Inglês apontou que indústrias de extração e refino de
combustíveis fósseis financiaram cientistas para elaborar estudos que
questionassem as mudanças climáticas. John
Sauven, diretor executivo do Greenpeace no Reino Unido, comenta a investigação:
“Esse trabalho revela uma rede de especialistas 'de aluguel' e um canal de
bastidores que permite às empresas do setor de combustíveis fósseis influenciar
o debate sobre as mudanças climáticas – de forma oculta e sem deixar impressões
digitais.”. O que está em curso não é um debate acadêmico sobre as mudanças
ambientais, mas sim, uma luta econômica de grandes indústrias para avançar em
seus lucros onde a sua vitória significará a destruição do planeta.
Intensificação do
efeito estufa
O efeito estufa é um fenômeno importante
para a vida na terra. Graças a composição de nossa atmosfera é possível que
exista um equilíbrio térmico em nosso planeta, o que possibilita a existência
de vida, na forma que conhecemos. De forma bastante simplificada, o efeito estufa
impede que todo calor que a terra recebe do sol volte para o espaço novamente,
como se fosse uma tipo de “cobertor”. O equilíbrio do efeito estufa é um
aspecto muito específico de nosso planeta que possibilita ele apresentar a
diversidade de vida que tem.
Se observarmos dois planetas
próximos temos dois extremos que apontam a correlação do efeito estufa e sua
temperatura. Mercúrio é o planeta mais próximo do sol, mas por quase não
apresentar atmosfera, o calor que recebe do sol não fica retido no planeta,
resultando grande oscilação térmica −173 °C a 427 °C. Já Vênus, o
segundo planeta do sistema solar, tem uma atmosfera densa, formada
principalmente por dióxido de CO2 (96,5%) que é o elemento predominante na
formação do efeito estufa, o resultado faz com que sua temperatura média seja em
torno 461 °C, sendo o planeta mais quente do sistema solar, graças a um “super
efeito estufa”
Mas o gás carbônico não é o único
gás capaz de impedir que a radiação infravermelha emitida da Terra escape. Na
verdade, este contribui com cerca de 53 % do total dos gases estufa, sendo que
outros gases produzidos pelas atividades humanas também contribuem para o
efeito estufa: metano (17%); CFCs (12%), e óxido nitroso (6%), entre outros.
Além de estar em maior porcentagem, a concentração do gás carbônico vem
aumentando rapidamente nas últimas décadas.
O aumento da concentração CO2 na atmosfera
da Terra vem progredindo constantemente no último século. Essencialmente pelo
processo da queima de combustíveis fosseis e desmatamento. Isso ocorre pois todos
os organismos vivos concentram uma quantidade significativa de carbono. A medida
que morrem, organismos decompositores degradam as moléculas dos seres vivos e
liberam novamente para o ambiente.
Porém uma parcela significativa
de organismos vivos (plantas, animais, entre outros) ao morrer podem se
fossilizar impedindo o acesso de organismos
decompositores. Com o tempo esses organismos sofrem inúmeras transformações
químicas transformando-se em combustíveis fósseis (carvão mineral, gás natural,
petróleo). A medida que queimamos combustíveis fósseis ou desmatamos, o carbono
contido neles é liberado fazendo com que aumente sua concentração na atmosfera.
O grande salto na emissão de CO2 se deu após a revolução industrial e segue em curso em um ritmo assustador graças a queima constante de derivados de petróleo, gás natural e carvão. Esse processo é explícito e está representado no gráfico elaborado pelo NOAA. Em fevereiro de 2016, o nível de CO2 atmosférico atingiu média global foi de 402,59 ppm (partes por milhão). Antes de 1800, o CO2 atmosférico em média cerca de 280 ppm.
O aumento massivo da concentração
de CO2 atmosférico leva inevitavelmente a intensificação do efeito estufa e
consequentemente o aumento da temperatura terrestre. Em 2015, a temperatura
média da superfície da Terra atingiu níveis recordes: 0,68 °C acima da média
registrada entre 1961-1990. Já a previsão divulgada pelo Met Office, instituto
de meteorologia do Reino Unido, aponta que 2016 desbancará 2015 como o ano mais
quente desde o início dos registros, em 1880. A previsão é que a temperatura
média global será 1,14 grau Celsius acima da observada antes da Revolução
Industrial.
Abaixo temos um gráfico da
variação da temperatura em relação à média global até 2014:
Janeiro e fevereiro de 2016 registraram novos recordes
mensais de temperatura, desde quando os dados começaram a ser coletados. Os
dados foram divulgados pela NASA, revelando que a temperatura média em toda a
superfície terrestre ficou 1,35 grau Celsius acima da média para os meses de
fevereiro no período entre 1951-1980, usado como referência pela agência
espacial.
Consequências
O aumento progressivo da
temperatura causa uma série de danos no nosso planeta: A começar com o
derretimento progressivo das geleiras, causando aumento do nível do mar. Segundo
a NASA, o nível dos oceanos subiu cerca de 8 centímetro desde 1992, resultando
na destruição de inúmeros ecossistemas e causando uma realimentação positiva do
clima, pois a superfície branca do gelo faz com que se reflita a luz solar. A
medida que o gelo derrete mais calor é absorvido pelo mar que é escuro,
contribuindo para o aquecimento global.
Sem contar que inúmeras cidades
litorâneas estão ameaçadas com a progressão continua do nível do mar, isso
porque a perspectiva de elevação do nível do mar é de 0,8 a 2 metros ainda esse
séculos, fazendo com que cidades como Veneza, Roterdã, Bangcoc dentre outras
possam ficar submersas.
O aumento da temperatura também
tem intensificado a violência das tempestades em todo o mundo.
Isso se dá pela
mudança da densidade do ar aquecido e o reflexo é uma alteração na circulação
do ar em todo mundo. Existe um relativo consenso de que as tempestade estariam se
tornando cada vez mais violentas. Uma
comparação do número de furacões de categoria 4 e 5 em dois períodos, 1975-1989
e 1990-2004, mostra que no Pacífico Oeste o número aumentou de 85 para 116 (ou
de 25% para 41% do total) e no Atlântico Norte, de 16 para 25 (de 20% para
25%). Essa é apenas uma das inúmeras consequências do clima como secas e
alagamentos. No Brasil, as pesquisas realizada pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que houve um aumento de 79% no número de
dias de tempestade nos últimos 60 anos em comparação à primeira metade do
século 20.
Além disso, o aquecimento global
pode intensificar a fome mundial, não só pela destruição da produção agrícola
através de secas e tempestades, mas também pela redução da população de
polinizadores. O aumento da temperatura resulta na queda drástica da população
de polinizadores (abelhas, borboletas e outros insetos).
Estima-se que a população de
abelhas tenha caído 40% nos Estados Unidos e 50% na Europa nos últimos 25 anos.
Um quarto das espécies está sob ameaça de extinção. A pesquisa publicada na revista "Science" é
o primeiro estudo que explica a responsabilidade da mudança climática para o
declínio das populações de abelhas e mamangabas a nível mundial. Também existe
um processo migratório de borboletas europeias e americanas para o norte na
busca de regiões de temperaturas mais amenas. A Plataforma Intergovernamental
sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES) analisa que: de 5% a
8% da produção agrícola mundial, ou seja, entre 235 e 577 bilhões de dólares,
são diretamente dependentes da ação dos polinizadores nas colheitas (cereais,
frutas, etc).
Uma política que
reverta o aquecimento global
É preciso reduzir drasticamente a
queima de combustíveis fósseis, investindo em energias renováveis. Também se
faz necessário estancar o desmatamento e ampliar as medidas de proteção ambiental.
Outros elementos que também intensificam o efeito estufa, como metano e CFC`s, devem ser reduzidas, e isso se passa por
mudanças de hábitos da população.
A educação ambiental para o
conjunto da população e o maior investimento na pesquisa científica para
compreender de forma mais aprofundada o clima também se fazem necessárias. É
preciso popularizar o conhecimento científico como forma de defesa do planeta,
impedindo que charlatões a serviço da grande indústria petrolífera mantenham a
população mundial em um ‘transe” que vivemos em um planeta infinito e que a
grande fórmula para felicidade é o consumo desenfreado.
Essas medidas são urgentes e para
realizá-las é necessário se enfrentar inevitavelmente com
o modelo econômico mundial que joga a humanidade e o planeta para destruição.
Está nas mãos dessa geração tirar o planeta dessa encruzilhada.








