domingo, 29 de março de 2015

Por que a cooperação é um elemento central da Evolução?




   Sempre houve uma tentativa de desqualificar o Darwinismo, utilizando diferentes formas. Uma delas foi uma tentativa de justificar o individualismo e a competição sobre o prisma de “o mais forte sobrevive”. A teoria da evolução foi usada muitas vezes, inclusive para justificar o racismo. Em geral, o conjunto dessas distorções ficou conhecido como darwinismo social, e foi base para movimentos totalitários e imperialistas.

   De fato existe na natureza uma luta pela sobrevivência, porém o processo evolutivo da vida vai muito além do que uma competição onde individualmente um ser compete com o outro. A forma como os organismos se comportam pode cumprir um papel significativo na garantia de sua sobrevivência. A cooperação cumpriu um papel determinante no desenvolvimento da vida na terra.    

   Essa cooperação da vida se estende desde o ponto de vista molecular, passando pelo nível celular a organismos microscópios, chegando para estruturas mais complexas de comportamento. Por isso, resumir o darwinismo a uma mera competição extremada entre os seres vivos na luta para garantir a sobrevivência é, na prática, um completo desconhecimento (ou desonestidade) do que significa a Evolução.  

   O processo de cooperação se estende a inúmeras situações e partir dela foi possível a complexidade da vida na terra dar saltos. Os organismos mais simples são compostos por células procarióticas, que são células mais simples que não apresentam núcleo nem uma complexa “maquinária” de organelas que potencializam o metabolismo celular. Já os mais complexos apresentam células eucarióticas, com núcleo, que possibilitou o desenvolvimento de DNA  mais complexos e uma produção mais eficiente de proteínas.         
  O provável desenvolvimento de células Eucarióticas ocorreu partir da associação cooperativa de células procarióticas, processo conhecido como simbiose.  É provável que em algum momento um organismo tenha incorporado outro num processo de cooperação, em que um oferecia produção de energia e o outro proteção, processo conhecido como endossimbiose. Esse processo possibilitou aos organismos passarem de simples bactérias (procarióticas) a  formas de vida mais complexas.    
   
   Inúmeras evidências apontam para confirmação dessa teoria. As mitocôndrias e os cloroplastos tem seu próprio DNA e são delimitados por duas ou mais membranas. Suas membranas são constituídas por peptidioglicanos (que são característicos de células bacterianas). E a mitocôndria e cloroplastos são similares às bactérias em tamanho.
A nível celular, podemos observar, que em última instância todo maquinário está a serviço de que o DNA daqueles organismos sejam ”passado para frente”. O conjunto mais diversificado de células garante o funcionamento de um maquinário, para que as células reprodutivas consigam atingir seus objetivos, de se reproduzir.

   Saindo do campo micro e passando para o macro, a natureza nos demonstra inúmeros exemplos de uma profunda cooperação entre algumas espécies. A associação entre algas verdes e musgos que resultam nos líquens, ou os insetos responsáveis pela polinização das flores são exemplos dessa cooperação. Talvez um exemplo bastante significativo é a do  pássaro palito que retira dos dentes do crocodilo restos de alimentos, ajudando o crocodilo e ao mesmo tempo tendo uma alimentação fácil. Se a competição insana prevalecesse, provavelmente o réptil  abocanharia a presa fácil.

   Entre organismos da mesma espécie temos exemplos de sacrifícios para que suas espécies continuem existindo. Tanto polvo, quanto lulas só se reproduzem uma vez. Após a copula o macho morre e a fêmea sobrevive apenas o tempo suficiente para o cuidado dos ovos. Poderíamos citar as abelhas, que para proteger a colmeia ataca os invasores com ferroada, mesmo que esse ataque custe sua própria vida.  

   Entre os insetos é possível a formação de agrupamentos complexos para melhor desenvolver aquela população. Richard Dawkins em seu livro O Gene Egoísta escreve:

“Em certas formigas há uma casta de operárias com abdomens grotescamente inchados, cheios de alimento, cuja única função na vida é dependurarem-se do teto como lâmpadas inchadas, sendo usadas como reservas de alimento pelas outras operárias. Do ponto de vista humano elas absolutamente não vivem como indivíduos; sua individualidade é subjugada, aparentemente para o bem-estar da comunidade
A maioria dos indivíduos numa colônia de insetos sociais são operárias estéreis. A "linhagem germinativa" - a linha da continuidade dos genes imortais - flui através do corpo de uma minoria de indivíduos, os reprodutores. Estes são análogos as nossas próprias células reprodutivas nos testículos e ovários. As operárias estéreis são análogas ao fígado, músculo e células nervosas.”

   Poderíamos citar outras centenas de exemplos, de profunda cooperação na natureza, como os bandos de macacos (ou outros mamíferos) que vivem em grupo cuidando comumente da prole. Ou morcegos-vampiros que se alimentam de sangue e depois voltam para o ninho e vomitam o sangue para alimentar outros morcegos que não conseguiram se alimentar.

  Nossa espécie é um exemplo categórico de que só foi possível atingirmos a complexidade da vida que temos hoje, em função de nossa profunda cooperação. A vida em bando nos protegeu de possíveis ameaças e nos ajudou a buscar alimentos. A transmissão da tradição e conhecimento adquirido dos mais velhos para os mais novos possibilitou uma aceleração de hábitos que melhoram profundamente a qualidade de vida das tribos: “como caçar, o que plantar, como entender os fenômenos ambientais, dominar o fogo” foram elementos determinantes que nos possibilitaram se adaptar as mudanças climáticas, dando um destino oposto ao de nosso parente próximo, o neandertal. Sem a cooperação, a vida em comunidade e a solidariedade entre os humanos, jamais atingiríamos a estrutura biológica e social que temos hoje.


  Infelizmente, hoje os setores sociais que dominam politicamente e socialmente nossa sociedade potencializaram a competição em um nível nunca visto antes na humanidade. A disputa por mercados de forma irracional, onde se visa somente o lucro pode colocar a sobrevivência de nossa espécie em xeque, seja destruindo o meio ambiente ou através de guerras e miséria.   Em um momento em que nosso planeta se encontra em uma encruzilhada, sempre é bom reafirmar que foi a cooperação que possibilitou que a nossa espécie sobrevivesse a situações complexas.       

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Existe um comportamento sexual natural?



   “Isso não é natural!” Exclamam setores sociais ligados geralmente a grupos religiosos quando opinam sobre relações homossexuais. Esse argumento da naturalidade vem combinado com uma serie de outras afirmações como: “o sexo é para procriar”, “deus fez o macho para femêa”, “é uma aberração”, etc. Essas series de afirmações dão sustentações a toda forma de preconceito contra os LGBT´s potencializando agressões psicológicas, verbais e físicas. Frente a essas afirmações é preciso responder a seguinte pergunta: “De fato existe um comportamento natural?”.

   Os setores religiosos afirmam que todas as criaturas são criações divinas. Os humanos também fazem parte dessa “fabulosa criação”. Primeiro Deus criou Adão do barro e Eva a partir de uma costela de Adão. Ambos desconheciam o pecado, até que Eva comeu o fruto proibido rogando sobre a humanidade o peso do pecado. Portando, as relações homossexuais para esses setores seriam uma perversão que atenta contra as regras divinas.

   Porém, ao nos defrontarmos com o comportamento geral dos animais podemos observar que o conceito de “normalidade”, “natural” não se encaixam em dogmas. O comportamento que as criaturas da natureza adotam são extremamente variados e fascinantes. Uma pesquisa de 1999, feita pelo pesquisador Bruce Bagemihl, mostra que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1.500 espécies animais.
Podemos citar algumas espécies que tem relações homossexuais como, por exemplo, carneiros, girafas, libélulas, pinguins, gaivotas ocidentais, golfinhos nariz-de-garrafa, dentre outras. Alguns animais realmente formam casais homossexuais que passam juntos a vida toda, chegando a criar filhotes às vezes doados por casais heterossexuais, às vezes, resultado de uma “escapada” de uma das fêmeas. Ou seja, o comportamento homossexual entre animais é comum ou em outras palavras...natural.

   Os bonobos, parentes próximos dos chimpanzés, que vivem ao sul do Rio Congo utilizam o sexo como uma ação para resolver conflitos no grupo, extrapolando a concepção de sexo para procriação. Nos bandos de bonobos o sexo entre fêmeas ou entre machos são extremamente comuns de serem observados. O sexo como uma função social, entre os bonobos, ocupa o lugar dos conflitos físicos que ocorrem entre os chimpanzés como mecanismos de resolução dos problemas do grupos. 

   Nos Albatrozes de Laysan, os pares de mesmo sexo podem durar tanto quanto os pares tradicionais – em um caso observado, chegou a 19 anos. Na Nova Zelândia, um par do mesmo sexo de albatrozes reais, que são maiores, foi visto cuidando de um ninho, o que sugere que este comportamento é comum.


   Já entre os leões, que são vistos como símbolo de “liderança, força e virilidade” para nossa sociedade, o comportamento homossexual também ocorre. Certa porcentagem de leões africanos machos abandonam as fêmeas disponíveis para formar seus próprios grupos homossexuais.


   Inúmeros exemplos na natureza demonstram que os comportamentos homossexuais entre animais é bastante convencional.  Ou seja, esse discurso de relações sexuais não é natural e por si só caem por terra. Além disso, reduzir o comportamento humano entre natural e não natural é um completo delírio. Andar de carro, ir ao cinema, viajar de avião, escovar os dentes, tomar remédios, todas são ações extremamente antinaturais. A única coisa que podemos afirmar de forma categórica é que a homofobia cumpre um papel de intolerância, ódio e preconceito, portanto que fortalece a barbárie na nossa sociedade.      

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A vida na Terra poderia ter vindo do espaço?






Quando pensamos em “vida”, surge imediatamente em nosso pensamento inúmeras condições físico/químicas para garantir a sua existência, como temperatura equilibrada, alimentos, oxigênio, pouca radiação, etc... Porém quais os limites que a vida pode suportar? E mais... A vida pode sobreviver em condições drasticamente diferentes das quais vivemos?

   Nosso planeta agrega uma série de condições que possibilitaram a evolução da vida terrestre numa complexidade extraordinária.  Mesmo em regiões de condições extremas, na terra, existem organismos que se adaptam a ambientes que até certo tempo acreditaríamos ser impossível sobreviver.

   Poderíamos citar, por exemplo, algumas espécies das Archaea que podem sobreviver a temperaturas superiores a 100 °. Alguns micróbios, chamados de psicrófilos, são geralmente encontrados no gelo polar, em geleiras e nas águas de oceanos profundo, a temperaturas tão baixas quanto 15 graus Celsius negativos. Poderíamos listar outras inúmeras espécies terrestres que vivem em condições extremas aqui na Terra.
Mas na Terra, mesmo tendo ambientes extremos, sua longa idade possibilitou que as espécies terrestres se adaptassem a situações de vida complexas. Porém a vida poderia sobreviver em condições extraterrestres? Primeira questão: É preciso localizar que o conceito que entendemos sobre vida é extremamente reduzido frente à imensidão do cosmos, mas mesmo a vida na qual conhecemos hoje é capaz de nos surpreender.

   Existe uma espécie de invertebrado, os tardígrados, que medem apenas 1 mm. Esses seres vivos são capazes de viver em condições extremante antagônicas, a temperaturas tão baixas quanto -200 °C e tão altas quanto 151 °C, congelados em um bloco de gelo. Com falta de oxigênio e de água por décadas, a níveis de radiação por raio-x mil vezes a dose letal a um ser humano.  As baixas pressões do vácuo, como as do espaço e a altas pressões (6 vezes a pressão do oceano mais profundo).


   Em setembro de 2007, os tardígrados subiram a bordo de uma cápsula Foton-M3, da Agência Espacial Européia. Na cápsula, os invertebrados foram expostos a condições como o vácuo, radiação ultravioleta e raios cósmicos. No caso dos raios ultravioletas, a intensidade é cerca de mil vezes maior do que a experimentada na superfície da Terra. No entanto, a radiação não impediu que uma parcela dos microviajantes espaciais voltasse viva e, pior (ou melhor) ainda, desse origem a novos tardigradozinhos.

   Ou seja, isso abre uma possibilidade e não torna a ideia um completo absurdo de que formas de vidas poderiam viajar pelo espaço ou sobreviver em outros planetas em condições radicalmente diferentes da Terra. Isso reforça uma teoria de que a vida na Terra tem origem extraterrestre, onde microrganismos chegaram a terra junto com fragmentos de meteoros e asteroides, que caíram aqui no período de sua formação. Essa teoria é conhecida como panspermia.


   Até o momento não existe nenhuma prova categórica sobre a origem da vida na Terra, apesar de ter inúmeras teorias bastante consistentes. Mas para além da origem da vida na Terra, os tardígrados reforçam a possibilidade de existência de formas de vidas fora dela. Como afirmou o físico Carl Sagan: “Se estamos sozinhos no mundo, o universo é um enorme desperdício de espaço”.